quarta-feira, 5 de junho de 2013

Clarice se inclina a acreditar que a vida em nossa esfera óptica seja um engodo maior que em relação à esfera onírica. Tem pirraça moral constante para conseguir manter a lógica e racionalidade, e necessita de jogos mutiladores do seu aspecto físico e confabulante. A música parece mais próxima da realidade derradeira e do sentido derradeiro que uma interlocução débil. Sofrer por amor, ela pensa e abstrai, é uma expiação enganosa de todas as esferas, cognitivas, psicológicas, e se pergunta: "Nos traímos quantas vezes em um espaço sonoro?"

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Carolina tinha os cabelos castanhos e a pele amendoada, não os olhos, os olhos eram cinzentos, ah, as janelas da alma! Carolina acorda as seis da manhã e passa batom cor carmim para ressuscitar a alma, não quer mais trabalhar em pronto atendimentos, acredita que a vida seja natural assim como a morte. Entretanto, se sente com o ego ferido, esfaqueado e para não entrar em choque tenta um último paliativo, vai contra suas próprias regras, vai contra seus princípios, Carolina tenta usar o véu humano da sobriedade, talvez ela consiga comer ou se sentar à mesa, com algum esforço. Os olhos fundos estão sendo cantados e encontrados por aí, Carolina não ama ninguém e talvez queira não ser amada, Carolina quase come as pessoas em seu sortilégio de cada dia, talvez tenha se perturbado com sua fraqueza diante de uma semana mal vivida, uma vida de aprendizado para uma queda tão vil. Carolina quer se esfaquear, mas não sabe fazer isso, tem asco do próprio sangue e da própria desilusão previamente criada para que chegasse a esse ponto de despersonificação induzida. Carolina não tem nome, deveras, só cadernos e rascunhos pretensiosos. "Carolina, com seus olhos fundos, guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo."

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Há experiências e acontecimentos súbitos movidos pela volição incontida que realmente revelam em um instante o mais íntimo de alguém do que alguns anos de irrisória iniciativa pessoal para com os outros. Quando configurar um dano ou perda material é base para acordo de um término de relacionamento a situação neurótica parece ter chegado ao extremo. Agir como se o mundo fosse terminar onde o desejo não satisfeito termina constitui cerne de atitudes vulgares de cada dia e cada noite mundana. Particularmente, acredito que essas situações tenham apelo ao bom desenvolvimento do ego no decorrer da vida, embora unicamente quando em restrição, quando em tempo limitado. Situações extremas devem ser experimentadas com gosto, em todos os seus âmbitos, lados e pontas, deve-se deliciar-se com cada tênue limite perpassado, cada notória mudança de conduta ininteligível e idiossincrática. Eis mesmo um cenário de beleza! Entretanto, fazer dessas um hábito gera asco e sombra ao indivíduo, como toda repetição compulsória que antes deveria ser apenas fugaz (ou memorável) desconstrução ou reconstrução individual. Talvez uma situação extrema seja um engodo para nossas percepções de nós mesmos, ou viver no limite só ressalte o egoísmo ou empatia de cada um, como já previsto.

domingo, 19 de maio de 2013

Forjar o desencontro assim como forjar encontros não é lá tão louvável. Qual será o limiar da naturalidade? Qual será o limiar entre o acaso e nossa intervenção pró-ativa no desenrolar de momentos? É instigante imaginar que em dez anos uma pessoa pode não ter notícias de outra de quem gosta e em seguida se ver casada com a mesma com um simples telefonema permeando tais situações. As relações têm sido tão projetadas e somos tão obcecados por pessoas de quem não gostamos, sofremos por alguém que não nos interessa na realidade, no âmago. Eis nossos simulacros de esquiva à perda! Talvez a paz de espírito possa resolver ou salvar nossos relacionamentos.

terça-feira, 23 de abril de 2013

E se as telas e pincéis da Itália fossem espelhos e colinas da Irlanda? Um bárbaro captura a beleza tanto quanto um Sanzio. Enquadramos quase toda a beleza da vida que nos toca (seria um impulso primitivo?), eis um dos males da métrica, uma onipresença na expressão, eis a compulsão por achar, ou dar alguma exatidão em todo o caos da disposição natural. Talvez precisemos de um mínimo de aritmética para reconhecer a vida. Ser naturalista e transpor ecossistemas e universos em arte, mostrar o gosto parcial e sutil percepção de uma cognição, intercambiar imagens, intercambiando ideias, pela geometria, ser engajado através de um objeto "quadrado". "Pensar é estar doente dos olhos" dizia Caeiro, será verdade? Quadrados e suas pontas limitantes e ao mesmo tempo desbravadoras, pontas que delinearam história e delineiam críticas. Uma vida de ensinamentos pelo quadrado. A "Educação pela pedra" do Sr. João Cabral é antes a "Educação pelo quadrado"! A fotografia, o livro, o pergaminho, a tela. Plantar árvores através de um monitor é viável? E cá estamos, a pós-modernidade é tão "natural" para quem tem todo o aparato de carbono e silício, um contraponto ou um só ponto?

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Arrebol de outono

Acreditando em acasos e ocasos ela se penteia e se pinta, usa fitas e borda a noite, talvez ela não saiba que a ilusão óptica é mais do que física, é toda a sua significância em uma mente que se projeta. Espera por um animal qualquer, deixa o fogo aceso e talvez faça alguma bebida quente, para não se sentir sozinha; pela janela folhas amassadas e secas, alaranjadas como o ocaso pelo qual espera e se pinta, a mesma cor, e as folhas têm os mesmos tons, e assim a chama, e assim sua polidez de cada dia. A física não lhe permite mais do que a enternecedora cor e calor de cada raio de luz, talvez seja melhor contratar pessoas que instalem cortinas, ela não é capaz. Anoitecendo a cortina se resolve, não precisa existir, e ela só pensa na manhã, cujo arrebol já não é capaz de a esquentar.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Não tenho a pretensão de ser científica, mas quero tratar da problemática do suicídio. Talvez seja antes uma questão moral e de delimitação da liberdade, que para mim se mescla à autonomia que é íntima à questão de se racionalizar sobre desejos. Seguir os impulsos não é ser livre, ponderar sobre eles e escolher um caminho sim. A racionalidade pauta a liberdade, pois. A angústia e a melancolia da vida, segundo um certo senhor estrábico do século passado, é consequência dessa ponderação livre e além disso, uma atitude pró-construtiva do ser humano, angústia vem da liberdade junto a suas implicações e responsabilidades. Eis uma introdução. Gostaria antes do cunho literário ter atenção filosófica, a questão do suicídio tem perpassado meus estudos em psiquiatria e como emergência médica que é qualificada, tenho me atentado para a possibilidade de recusar a possibilidade patológica da questão ou talvez flexibilizar o patológico para o "naturalmente-humano" (demasiado humano, talvez). Tenho sido doutrinada para reconhecer o caráter de Transtornos Depressivos Maiores em pacientes e julgar seu risco de suicídio, internação seria um bom procedimento para tais pessoas, psicoterapia ativa e aviso prévio de familiares outra boa conduta. Bravo aos médicos, dai-nos o comprimido de cada dia! Entretanto, quando se analisa do ponto de vista moral, devo eu, agir a ponto de interferir na autonomia alheia? Acredito que tanto a patologia psiquiátrica da depressão, a qual possui um subtipo denominado melancólico, quanto o suicídio em si são consequências naturais, lineares e saudáveis do uso devido da liberdade. Escolhas trazem angústia, angústia pode gerar quadros progressivos de tristeza, entretanto, não devo ter cortes ou intromissões no direito de escolha ponta pé para o desenrolar da sequência, não admite-se intromissões na autonomia de escolha, nesse ponto estão todos em pleno acordo, a constituição endossa. Admite-se, pois, intromissão sobre o que se fazer das consequências da liberdade? Ter garantido o direito ao suicídio deveria ser um mérito de nossas questões filosóficas de cada dia. O niilismo estaria correndo o risco de se extinguir por civilidade e ser taxado de transtorno patológico, como pude constatar em certo compêndio psiquiátrico? A ausência de sentido na vida é uma forma de observar e compreender a vida, não acredito que seja uma visão negativista ou realista, mas uma visão, de um panorama específico, assim como a visão de que a vida é bela, é regida por um deus ou é só uma ilusão sináptica. Nossa cultura pós-moderna distorce a noção de humanidade, saúde, beleza, eis o ápice apolínico. O dionisíaco de cada um está em nossos impulsos cada vez mais violentados pelos recalques da etiqueta social. O freudiano do gozo tanto pela vida, quanto pela morte que nos é intrínseco está privado em regras de bons costumes e rótulos em que se escreve "patológico". A vida é patológica, o ar é patológico e nos oxida! Respeitar o transtorno que cada um exige, compra, mimetiza para si é preciso, o respeito em seu conceito se perdeu, a conveniência respeitosa prepondera. O fato se encerra em que nem a psicanálise, nem a medicina salvam a sociedade de sua mazela moral a que todos se submetem e se despersonificam no decurso. Movimentos por autonomia seriam mais dignos do que movimentos remediadores por legalizações de assuntos discordantes, a polêmica existe em detrimento do desrespeito à liberdade de viver ou morrer que cada indivíduo carrega consigo, inalienável autonomia da existência.